domingo, 22 de setembro de 2013

Lindo e raro encontro



Se sou sincera? Não existem pessoas sinceras. Sinceridade não constitui estado permanente, é fenômeno. E dos espontâneos. Sinceridade é sempre espontânea. Honestidade é premeditada, sinceridade acontece. Perguntas súbitas evocam respostas sinceras. A surpresa é sincera. O riso incontido também. O choro que transborda é sinceridade úmida que escorre pelo rosto. O suspiro de exaustão, os vômitos em jato e a coceira, o olhar deslumbrado dos apaixonados. Sinceridades somáticas. Acontecimentos sinceros revelam. São véus caídos que desnudam verdades. E mais, que possibilitam identidades e identificações. Ou você nunca se identificou com um comportamento inapropriadamente sincero? Uma risada no velório ou uma crise de tosse no silêncio de uma platéia atenta? O inoportuno é sincero. O incoveniente também. O arroto que escapa e o bocejo que viola o mutismo dos lábios comprometidos com a escuta do outro. Acredito mesmo que a sinceridade é sempre um grito de liberdade. Por vezes em baixos decibéis, mas não menos grito. No que o grito tem menos de forma do que de conteúdo. A sinceridade é a erupção da singularidade. Ok, posso ser a maior parte do tempo esse ser social e sociável, mas a sinceridade resgata-me do outro. Permite-me ser o que sou, ainda que por fugazes instantes. Instantes que podem possibilitar um lindo e raro encontro: o que há de sincero em mim conhecer o que de sincero há no outro.

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